Papel
Lead Product Designer
Duração
8 meses
Time
Produto, Engenharia, Compliance, Jurídico
Resultado
Aprovação Pix pelo BACEN · Licença IP estendida a CPF
Contexto Estratégico
As apostas eram maiores que o Pix
A Transfero buscava a licença SPSAV — Sociedade de Pagamento e Serviços de Ativos Virtuais — junto ao Banco Central do Brasil. Essa licença autorizaria a Transfero a operar como instituição de pagamento regulada para ativos virtuais, desbloqueando contas individuais (CPF) e expandindo drasticamente o mercado endereçável da empresa.
Havia um pré-requisito: o BACEN exigia conformidade total com o Pix antes que a aprovação do SPSAV pudesse avançar. O Pix não era uma feature. Era a condição.
Ao mesmo tempo, o modelo de contas da Transfero era baseado em contas pooled — não as contas nominais individuais que tanto o Pix quanto o SPSAV exigiam. A arquitetura do produto, a postura de conformidade e a UX precisavam ser repensadas simultaneamente, sob um prazo regulatório apertado.
Esse não era meu primeiro contato com essa camada regulatória. Na Clara, eu havia projetado uma conta digital junto a uma licença de Instituição de Pagamento — e deliberadamente adiado o Pix para a Fase 2, porque a infraestrutura de contas nominais precisava existir primeiro. Na Transfero, eu estava agora do outro lado desse adiamento: construindo a camada Pix que a licença IP torna possível. O stack de pagamentos do Brasil tinha amadurecido. O desafio de design também. Ver o case da Clara →
O Desafio Regulatório
22 capítulos de UX obrigatória
O BACEN publica os Requisitos Mínimos para Experiência do Usuário — um documento de 22 capítulos que especifica não apenas o que o Pix deve fazer, mas como deve se comportar do ponto de vista do usuário. Mensagens de erro, timing de notificações, fluxos de gerenciamento de chaves, etapas de geração de QR code, visibilidade de reembolsos: tudo prescrito em linguagem regulatória.
Trabalhando junto ao time de produto, percorri cada capítulo para identificar quais requisitos se aplicavam ao contexto da Transfero — mobile-first, B2C, sem infraestrutura física — e quais poderiam ser postergados. O resultado foi um escopo claro para a Fase 1: 13 jornadas obrigatórias a projetar, construir e submeter ao BACEN como evidência de conformidade.
Fase 1 — Entregues
- Pix com Chave
- Pix por Entrada Manual
- QR Code Estático — geração e pagamento
- Extrato de Transações
- Devoluções
- Gerenciamento de Chaves
- Limites Pix
- Pix Agendado
- Pix Copia e Cola
- Pix Automático
- Notificações e Conformidade Geral
- MED Self-Service
Postergados — com racional documentado
- QR Code Dinâmico complexidade de backend
- PSI / Iniciação de Pagamento não exigido para aprovação SPSAV
- Integração com Lista de Contatos melhoria de UX, não bloqueante
- Internet Banking produto é mobile-first
- Acessibilidade Pix trilha dedicada
Processo de Design
Traduzindo linguagem jurídica em interação
Documentos regulatórios são escritos para auditores, não para designers. Meu trabalho foi de tradução: pegar cada obrigação e convertê-la em uma decisão de UI fundamentada em como as pessoas realmente se comportam diante da incerteza em fluxos financeiros.
Três tensões definiram cada decisão de design:
- Completude regulatória vs. carga cognitiva. O BACEN exige telas de confirmação, estados de erro específicos e requisitos explícitos de notificação. O risco é transformar cada fluxo em uma lista de verificação que os usuários param de ler. Usei divulgação progressiva — exibindo o conteúdo regulatório no momento em que é relevante, não tudo de uma vez.
- Prevenção acima de recuperação. Em fluxos financeiros regulados, uma transação falha tem consequências reais — para o usuário e para a trilha de auditoria. Priorizei a lógica de validação no início do fluxo: verificação de formato da chave Pix, aviso de saldo disponível antes do usuário digitar qualquer valor, alertas de limite antes do envio.
- O obrigatório deve parecer nativo. O BACEN prescreve linguagem específica para determinados estados — alertas MED, confirmações de Pix agendado, prazos de devolução. O desafio de design foi absorver essa linguagem na voz e no sistema visual da Transfero, para que parecesse uma funcionalidade do produto, não um aviso jurídico sobreposto.
Fluxo — Pix com Chave
A Jornada Principal
O Pix com Chave é o fluxo de transferência primário — o que a maioria dos usuários utiliza no dia a dia. Cada etapa tem uma contrapartida regulatória direta: a tela de revisão, o End-to-end ID no comprovante, o bloqueio de chave por fraude, o gate de autenticação antes do envio.
Prevenção
O saldo disponível é exibido na tela de valor antes do usuário digitar — não como erro depois do fato.
Trilha de auditoria
O End-to-end ID aparece em destaque no comprovante — obrigação BACEN, projetado para parecer útil e não ruído técnico.
Bloqueio por fraude
O alerta "Chave bloqueada" aparece na revisão, não no envio — interrompendo transferências sinalizadas como fraude antes da autenticação.
Input inteligente
O atalho MAX e a detecção de clipboard (Pix Copia e Cola) reduzem erros de entrada manual sem adicionar etapas ao fluxo.
Submissão e Evidência
Design como evidência regulatória
Para a revisão formal do BACEN, cada uma das 13 jornadas exigiu evidência documentada: a obrigação regulatória descrita, a implementação de design explicada e as referências de tela no Figma anexadas. Produzi essa documentação em estreita colaboração com os times de produto e jurídico — os arquivos do Figma não eram apenas artefatos de handoff, eram evidência legal.
Isso significava que cada decisão de design precisava ser rastreável até sua origem regulatória. Telas sem justificativa documentada não podiam entrar na submissão. A disciplina imposta pelo processo regulatório tornou-se uma prática de qualidade de design: nada arbitrário, nada sem documentação.
Resultado
Aprovado. E além.
13
Jornadas Pix aprovadas
22
Capítulos regulatórios mapeados
0
Pedidos de retrabalho de UX
8 me
Do briefing à aprovação BACEN
O BACEN aprovou a Transfero como instituição Pix-compatível. As 13 jornadas passaram pela revisão de conformidade sem retrabalho no lado de UX — resultado direto de tratar o documento regulatório como especificação de produto desde o início, e não como uma restrição a ser negociada no final.
Mais significativamente: a aprovação desbloqueou a próxima fase do processo SPSAV. O BACEN autorizou a expansão da licença IP da Transfero para Clientes Pessoa Física (CPF), viabilizando contas transacionais e acesso direto ao Pix para usuários individuais — a capacidade central em torno da qual a licença SPSAV é construída.
Os componentes de design system produzidos para o Pix foram incorporados ao BaaSiC — a plataforma Banking as a Service da Transfero. Continuo trabalhando no projeto SPSAV, projetando os fluxos que a certificação Pix tornou possíveis.
Protótipo
Explore os fluxos completos
Protótipo interativo com as 13 jornadas Pix — abra no Figma para navegação completa.